Sizígia: a complementaridade contida num par de opostos - Atihé
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Sizígia: a complementaridade contida num par de opostos

Ano 2022Páginas 142Formato BOOKISBN 9786589476962

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Sobre o livro

Góticas, simbolistas, fantásticas, recontos, ficção mitológica, nada disso e tudo isso ao mesmo tempo, as histórias narradas nesta miscelânea fluem numa tradição literária inventada e elusiva, que não precisa nem quer se enquadrar num cânone exclusivo. Entendo, contudo, que se trata de uma tradição imaginativa de que andamos muito precisados, nós os hiperracionais que nunca fomos tão parasitados pela irracionalidade que pensamos ter excluído até mesmo de nossas religiões anêmicas e esclerosadas. Talvez essa tradição imaginativa ajude a nos curar de tanta fantasia de realidade, trocando um pouco as lentes, ainda que só para descansar nossos olhos nublados pela objetividade cotidiana. * Escrever estes contos foi, para mim, durante quase 20 anos, uma maneira de processar eventos em experiências, como me sugeriu o analista junguiano James Hillman. Um modo consciente e deliberado de fazer-alma, ao qual ele também me convidou. Talvez essa seja uma categoria interessante: uma literatura do fazer-alma, que nos auxilie a processar, não em alguma tela externa, mas na subjetividade, e criativamente, nossas fantasias mais íntimas, nossos sonhos noturnos e devaneios diurnos, as histórias dos outros que confundimos com a nossa, nossas emoções deixadas a si mesmas, num mundo em que só a razão salva. Os meus, os nossos complexos aparecem personificados nas histórias que narro, como deuses de um panteão psíquico encarnados em personagens, manifestos nos atos que estes praticam. Todos são eu e eu é eles, como diria Rimbaud. E Fernando Pessoa, mas sem o erro deliberado de concordância. Aliás só me aproxima desses dois a pluralidade humana constitutiva que todos, sem exceção, partilhamos. * Meu primeiro conto mistura um relato de Ovídio em “O Asno de Ouro” (uma história dentro da história) com outro, de Diotima, a quem Sócrates menciona no “Banquete”, dá voz e chama de sua mestra. Os dois têm Eros como protagonista, o deus que faz a paixão amorosa irromper e assim, segundo o mitólogo Junito Brandão, “dilacera os membros e transtorna o juízo dos deuses e dos homens”. Me apropriei dessas histórias (ambas com valor de mito) com aquela liberdade infantil de leitora, a fim de contar uma terceira, que se passa, como todo mito, nos dias atuais. Ainda bem que os mitos clássicos não viraram dogmas e doutrinas, ou eu seria acusada de heresia. Em “MITOLOGEMA”, revelo a quem ainda não sabia que Eros teve duas mães opostas- complementares: Afrodite, deusa do Amor e da Beleza, e Pênia, a Penúria. E dois pais um pouco semelhantes: Ares, o deus da Guerra e da Violência, e Poros, o Recurso, a quem reuni num mesmo personagem bestial e poderoso - o Minotauro. Essa filiação quádrupla fez de Eros o eterno desejante, o mais poderoso entre os carentes, aquele que tem tudo e nada ao mesmo tempo, cujas flechas detêm um poder ambíguo de curar ou ferir, quase sempre as duas coisas. Como Eros irá reunir as duas histórias e criar uma terceira, é disso que trata o conto. * Contos de fadas são narrativas vivas, analogias percorridas de energia e cheias de sentido, que se transformam no tempo e nos socorrem mais do que manuais de autoajuda. Estão carregadas de elementos mitológicos e compartilham com o mito o frescor, a abertura e a força da oralidade original. “UMA PILHA DE CINZAS E ESTILHAÇOS DE CRISTAL”, “O QUINHÃO RECUSADO” e “LICANTROPIA” são minhas versões para três dessas velhas histórias eternas: a Gata Borralheira, a Bela Adormecida e Chapeuzinho Vermelho. Desafio você, minha leitora, meu leitor, a não reconhecer alguma experiência atual, seja pessoal e/ou coletiva, nessas narrativas que falam de dissociação e dos perigos do desejo. Há quem queira higienizar os contos de fadas, expurgar vilões, bruxas, monstros, provações, excluir deles o polo negativo... Recicladas do lixo dos neopuritanismos típicos de nosso espírito de época, as sombras dos contos de fadas continuam a fertilizar a imaginação e produzir resiliência, reforçando nosso sistema imune psíquico desde a infância. Minhas versões, embora se dirijam a adultos, mantêm os mesmos elementos simbólicos. Sem polo negativo não há tensão e sem tensão, a trama não se sustenta: nem a da narrativa, nem a da vida. Esses três contos também convidam você, leitora, leitor, a voltar à infância e, nela, ao seu conto de fadas predileto, para refletir sobre os motivos profundos dessa predileção. * Por fim, todos os livros falam de outros livros, como pontificou J.L. Borges, e o meu não escapa à regra do sumo-bibliotecário, como vimos até aqui. Mas me pergunto até hoje de onde veio e aonde foi parar o velhíssimo livro de capa dura azul, onde descobri uma deliciosa coletânea de contos fantásticos. Aos 15 anos, o mais que démodé Théophile Gauthier alimentou minha imaginação com todo tipo de exagero simbolista. Perdido o livro, minha alma reteve as histórias. De todas elas, “Avatar”, com seu titanismo cada vez mais realista, vivia me pedindo para ser recontada. Em novos termos, para um mundo dolorosamente parecido. A questão, eterna e nascida ontem, é: como reunir meu Ocidente ao meu Oriente? Em ‘SIZÍGIA”, uma velha de 90 anos quase responde. Experimente, cara leitora, prezado leitor, e depois me conte, aqui no site, o que achou.

Ficha técnica

Autor
Atihé, Eliana Braga Aloia, Eliana Braga Aloia Atihé
Editora
Grupo CJT
Formato
BOOK
ISBN
9786589476962
EAN
9786589476962
Ano de Publicação
2022
Número de Páginas
142
Dimensões
23 x 16 x 1 cm
Peso
3 kg
Idioma
pt-BR
Edição
1
SKU
9786589476962