O Brasil no espectro de uma guerra híbrida, de Piero C. Leirner 2ª edição
Militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica
O antropólogo Piero C. Leirner aborda um tema inédito em sua obra, a assim chamada Guerra Híbrida, e o modo que ela está sendo realizada no Brasil. Não se trata de uma guerra convencional, com fogo, mas de uma guerra que visa principalmente a captura e neutralização de mentes. Suas bombas são, antes de tudo, informacionais, visam causar dissonâncias cognitivas e induzir as pessoas a vieses comportamentais: percepção, decisão e ação passam a trabalhar a favor de quem ataca. Seu objetivo último é o que se chama nas teorias desse tipo de guerra de uma dominação de espectro total. Essa ideia de totalidade está no âmago da Guerra Híbrida: não há mais a separação entre guerra e política, ou tempo de guerra/tempo de paz; todos passam a ser, voluntária ou involuntariamente, combatentes; e não se vê exatamente nem seu princípio, nem seu fim.
A hipótese central é que o Brasil foi, e é, um laboratório onde este modelo foi aplicado. O caso estudado leva a um dos protagonistas principais desta forma de guerra e sua estratégia: um certo grupo de militares, operações psicológicas e o modo como isso se disseminou na política. O resultado é a dissonância generalizada que impera no Brasil hoje, seguindo um dos conceitos centrais da Guerra Híbrida a cismogênese, ou seja, a criação de divisões sociais com o objetivo de impossibilitar qualquer pacto social.
Nesta segunda edição, além de revisões pontuais, foram agregadas 16 páginas ao longo dos capítulos. Não se trata de uma inserção com dados do que aconteceu no Brasil após o final de 2019 - o texto original foi escrito no segundo semestre deste ano - mas de pontos que não foram contemplados na primeira edição e que esclarecem questões que mereciam uma discussão mais detalhada.
O destaque está em dois pontos fundamentais: primeiro no detalhamento de como a cibernética foi também uma matriz intelectual para as teorias da guerra híbrida que foram construídas mais de 50 anos depois; segundo, em como a "guerra ao terror", após o 11 de Setembro, infletiu em um ponto crucial para entendermos o que se passou no Brasil recentemente, que foi a ligação entre o direito e as teorias militares que passaram a observar um novo tipo de inimigo, resultando na guerra híbrida.
Respectivamente, hoje, estes pontos se conectam de maneira bastante clara tanto naquilo que se vê como uma guerra informacional e cibernética quanto no papel que o Judiciário tem no cenário político e militar brasileiro. Como se poderá ver, estes foram caminhos para pontos obscuros que nos atormentam diariamente, como hackeamentos, o papel das urnas eletrônicas na estabilidade das eleições e as ligações de setores do Estado com agências de inteligência estrangeiras.
Sobre o autor: Piero C. Leirner é Doutor em Antropologia pela USP e Professor Titular do departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSCar. Estuda temas relacionados aos militares, guerras e hierarquia desde o começo da década de 1990.