De cara você se percebe no bojo da aeronave a jato, em pleno voo, como se despertasse no meio da viagem. Deslocar o leitor para 10.000 m de altitude não é proeza para escritor qualquer. É preciso propulsão e, a um só tempo, tirocínio. Domínio mais uma vez mostrado por Hugo Almeida ao dar partida em Certos casais, no primeiro conto, “O sono do vulcão”, com palavras comuns, de uso diário “Deus fez o mundo à toa? Tudo tem motivo?”. Nada de abracadabras ou bababadalgharas. Fazer com que a cabeça do leitor permaneça nas nuvens exige ainda mais. Por obra e arte de Hugo, você já ficou refém, sem apelo, no “longo voo, agora noturno”, a ouvir “turbinas, incansáveis, lá fora”, e turbulências, concomitantes, lá dentro. Cá dentro, de você. Que está pensando e sentindo com o narrador, dividindo a atenção entre a escapadela de alta voltagem, em curso, com a passageira do banco de trás, affaire entre pé deslizante e mãos, idem, e a espiadela de duplo sentido “Lá embaixo, fogo – o Brasil arde onde ainda há floresta”. Lá embaixo você já vai estar quando se inicia o segundo conto, o deslocamento inverte se em “Outra vida para dona Olímpia”. A bordo também de uma nave, contudo térrea, de igreja, você adentra a cabeça da viúva que, tendo passado a Semana Santa em Diamantina, resolveu esperar pela Festa do Divino. Ela, você, está de olho no padre, fora do confessionário, na casual mão boba dele na adolescente que se confessa no banco ao lado do altar. De orelha em pé, a viúva, você orelha enviesada que dali pesca sons entrecortados. Logo se evidencia o rodízio desses personagens e de outros, as ligações entre eles, sua alternância como narradores nos oito contos do Livro I. Para além da autonomia, ambos, o Livro I pelo entrelace e o Livro II pelo teor, podem ser tidos como minirromances. O Livro II, de um só conto, “Amor radioativo”, é sobre o afeto e a tóxica tarefa profissional que unem Marya Sklodowska a Pierre Curie, o acidente que o vitima e desfaz o casal certo de Certos casais. A vida é imperfeição. // Beatriz Magalhães